Teoria Da Depêndencia E Da Interdependência Complexa

Hernane Elesbão Wiese*

GRIFFITHS, Martin. 50 GRANDES ESTRATEGISTAS DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS. [S.l.]: Editora Contexto, [20--?]

1 INTRODUÇÃO

O presente paper tem por objetivo apresentar de maneira direta e concisa o pensamento de dois “grandes estrategistas das relações internacionais”: André Gunder Frank e Robert Keohane.

Primeiramente, far-se-á uma abordagem sobre cada uma das teorias, tanto sobre a Teoria da Dependência de Gunder Frank como sobre a Teoria da Interdependência de Keohane.

Num segundo momento, será feita uma pequena comparação entre as duas teorias, visando realçar as suas diferenças.

2 A TEORIA DA DEPENDÊNCIA DE ANDRÉ GUNDER FRANK

A Teoria da Dependência surge como uma rejeição radical ao pensamento pós II Guerra Mundial, que pregava o desenvolvimento dos países terceiro mundistas atrelado ao processo de modernização liberal.

O desenvolvimento do Terceiro Mundo (seguindo as tendências liberais) tinha duas importantes premissas:

                                         1º.            A economia se inclina a igualar o desenvolvimento econômico com o crescimento econômico.

                                         2º.            Os obstáculos ao desenvolvimento de um país eram internos, e não externos.

 

Esse paradigma da modernização tem base forte no livro Estágios do crescimento econômico de Walt Rostow, de 1960. O crescimento econômico é importante para o desenvolvimento, mas precisa de mudanças comportamentais e estruturais.

O paradigma da modernização fortalece-se com o contexto da Guerra Fria. Este se apresentava como uma alternativa ao comunismo, justificava os investimentos norte-americanos (e as intervenções geopolíticas decorrentes) como uma ajuda aos países subdesenvolvidos.

Para Gunder Frank, e outros estudiosos como Fernando Henrique Cardoso, o paradigma da modernização não ajudava os países pobres. Ele representava uma relação colonial entre metrópoles (países ricos) e satélites (países pobres). A integração desses países subdesenvolvidos ao sistema capitalista mundial os levava justamente ao subdesenvolvimento que estes tentavam combater.

Vejamos o porquê desse subdesenvolvimento:

a.      O desenvolvimento das metrópoles nacionais dos países pobres é limitado pelo seu status de satélite de metrópoles nacionais de países ricos.

b.      Os satélites apresentam um melhor desenvolvimento econômico quando seus elos com as metrópoles são fracos (como numa colônia de povoamento, ex.: EUA, Canadá) e não quando esse elos são fortes (como numa colônia de exploração, ex.: América Latina).

c.      As áreas mais subdesenvolvidas são as que geralmente tiveram maior ligação com a metrópole (ex.: nordeste brasileiro).

d.      As transnacionais de países desenvolvidos se instalam no país subdesenvolvido aproveitando a farta oferta de matéria-prima e mão-de-obra barata.

e.      As instituições atuais que hoje parecem as mais feudais (ex.: latifúndios nordestinos) são as que tiveram sucesso no passado (ex.: ciclo da cana-de-açúcar), mas declinaram com a incorporação do satélite ao mercado mundial (o açúcar brasileiro não conseguiu competir com o das Antilhas).

 

Então, quando os países ricos oferecem “ajuda” monetária aos países pobres, eles nada mais fazem do que aumentar esse elo de dependência (e muitas vezes melhoram sua imagem na “colônia”). Para esses países pobres, o capitalismo mais parece uma doença do que uma cura.

Além do mais, há existência de ciclos longos de desenvolvimento com ciclos de estagnação e crise. A estagnação e a crise são conseqüências das limitações impostas às forças produtivas, que tendiam a dar retornos cada vez menores com o tempo. Em países bem sucedidos (como a Inglaterra), essas depressões levavam à predominância de pressões internas, de modo a reorganizar a produção. Isso corrobora a maior tese de Gunder Frank: os países subdesenvolvidos se tornavam subdesenvolvidos devido às posições particulares que ocupavam num sistema capitalista global expansionista.

3 A TEORIA DA INTERDEPENDÊNCIA COMPLEXA DE ROBERT KEOHANE

A Teoria da Interdependência parte de uma indagação fundamental, sobre a qual Keohane vai basear a seu doutorado em Harvard: as instituições se importam em explicar o comportamento dos Estados, ou só se pode deduzir o comportamento pela distribuição de poder?

Em 1972, Robert Keohane e Joseph Nye co-editaram um livro chamado Transnational relations and world politics, onde há uma discussão com o realismo. Neste mesmo livro, estudiosos examinaram a possibilidade de que as relações transnacionais entre agentes não-Estados (tais como multinacionais), fizessem com que houvesse uma superação da concentração excessiva de cientistas políticas na relações entre as nações.

O trabalho de Keohane (e Nye) saiu da descrição de um mundo supostamente interdependente para um tratamento teórico das conseqüências que esta interdependência complexa teria para com a liderança política e a manutenção de mudanças e regimes.

O resultado desse estudo foi o livro Power and interdependence: world politics in transition, publicado em 1977. O livro tem como base o argumento de que num mundo interdependente, o realismo é limitado para ajudar na compreensão das regras do jogo das relações internacionais.

Para dar sustentação a esse argumento, Keohane e Nye formulam dois modelos teóricos:

                                         1º.            Realismo (relações internacionais como uma luta pelo poder):

a.      Os Estados são unidades coerentes e os agentes políticos mais importantes.

b.      A força é um instrumento utilizável e efetivo da política.

c.      Existe uma hierarquia de assuntos na política mundial dominada por questões de segurança militar.

                                         2º.            Interdependência complexa:

a.      Participam agentes que não são Estados.

b.      Não existe uma hierarquia clara dos assuntos.

c.      O uso da força não é efetivo.

 

Keohane e Nye mostram que alguns temas são melhores no modelo de interdependência do que no modelo realista. Sob a interdependência complexa, é difícil que Estados democratas julguem e persigam políticas exteriores racionais.

Entre 1977 e 1984 (data de publicação de After hegemony), Keohane para de apresentar seu modelo de interdependência complexa como um rival ao realismo, há três razões básicas para isso:

                                         1º.            A descrição de realismo inclusa no livro Power and interdependence: world politics in transition é simplista.

                                         2º.            Os realistas reagiram.

                                         3º.            A Segunda Guerra Fria (final da década de 1970 e início da década de 1980) enfraqueceu as expectativas de que a interdependência complexa pudesse se expandir e acelerar o processo de obsolescência do realismo (Keohane reconhece que seu modelo não é uma alternativa clara ao realismo). A interdependência assimétrica (dependência) é uma forma de relacionamento de poder.

 

A publicação de After hegemony (em 1984) representa o ápice da tentativa de sintetizar o realismo estrutural e a interdependência complexa. O resultado é o realismo estrutural modificado ou o institucionalismo liberal.

Resposta de Keohane à sua pergunta fundamental: sim, o poder e o interesse próprio são importantes.

4 diferenças entre as duas teorias

A Teoria da Dependência de Gunder Frank condena os países pobres ao subdesenvolvimento, ela não apresenta nenhum tipo de instituição responsável por regular as relações entre nações, o que leva a uma exploração das nações pobres pela mais ricas. Apenas uma mudança comportamental e estrutural promovidas pela própria nação subdesenvolvida, pode mostrar o caminho do desenvolvimento. A aplicação de modelos que deram certo em outros países é por muitas vezes falha e insuficiente para garantir o progresso.

A Teoria da Interdependência de Keohane tem como base as instituições internacionais, que seriam responsáveis por regularem essas relações internacionais, amenizando, ou até mesmo extinguindo, a exploração imperialista. Essas instituições podem ser representadas pela ONU, pela OMC, UNESCO, etc. Para Keohane a papel dessas instituições é fundamental para o desenvolvimento dos países pobres.

Para Gunder Frank, mesmo hoje em dia ainda existem relações que remetem à colonização (como sua teoria explicita). Keohane cita o mesmo fenômeno, porém com outra terminologia: interdependência assimétrica (que acontece quando nenhuma instituição regula as relações internacionais).

Para Keohane (como já foi dito) instituições supranacionais seriam importantes para as relações internacionais. Para Gunder Frank, um pessimista quanto aos rumos do capitalismo, essas instituições poderiam não passar de mais uma ferramenta que os países ricos lançam mão para continuarem mantendo os países pobres dependentes deles.

 

*Acadêmico de Direito na UFSC

 

 

 

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Como referenciar este conteúdo

WIESE, Hernane. Teoria Da Depêndencia E Da Interdependência Complexa. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 26 Mai. 2008. Disponível em: www.investidura.com.br/biblioteca-juridica/resumos/relacoes-internacionais/70. Acesso em: 18 Dez. 2014

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