Leitura Crítica

LUCKESI, Cipriano; Et al. Fazer Universidade: Uma proposta metodológica. 10. ed. São Paulo: Cortez, 1998, p. 126-153

 

A prática da leitura no Brasil tem tudo a ver com sua história, uma vez que, como colônia de Portugal fomos fortemente influenciados por suas imposições. Havia restrições do que e de quem poderia ler e, mesmo quem lia, não possuía uma cultura voltada a critica do que estava sendo lido.

            O ato de ler era permitido a poucos: os portugueses recém-chegados, os senhores e seus filhos, os administradores coloniais, aos jesuítas e ao clero. Em suma, só as elites tinham direito à leitura, uma vez que às outras classes só sobravam o trabalho braçal e a subserviência.

            A própria literatura servia às classes dominantes e aos interesses metropolitanos. Por isso que, se fosse reconhecido o direito de ler de determinados grupos, ele sofreria restrições no conteúdo, que vinha, em geral, da Europa, o que significava uma legitimação da doutrina colonialista.

            Devemos nos atentar ao fato que, mesmo a leitura sendo restrita quanto ao que e a quem, ainda havia outro problema: a leitura era mnemônica. Não havia criticidade, o que era necessário para mudar a ordem vigente. Assim, as leituras consistiam em uma aceitação passiva do conteúdo, fosse ele científico, cultural, religioso ou técnico.

            Embora marcado pela teórica liberdade, o cenário atual não se difere muito do colonial. Ainda vemos apenas as elites com os livros e o povo longe deles, o que acentua suas diferenças. No que tange ao conteúdo e à qualidade dos leitores vemos, também, o mesmo panorama. Apenas as teorias mudaram, mas ainda nos querem impor a cultura dos países desenvolvidos e nossas leituras são marcadas pela acriticidade.

            Muito resta ainda, pois, a ser melhorado, o que exige uma universalização da leitura, para que todos tenham acesso a ela e, a partir dela, melhorar todo o cenário nacional. Podemos ver, não obstante, que há sinais que indicam que outra realidade começa a despontar, tais como a produção científica universitária e a atuação de movimentos populares que buscam a leitura da nossa realidade. Dessa forma, começa-se a transforma o aluno, fazendo-o assumir papel de sujeito e não de objeto no processo de aprendizagem.

            O papel de sujeito se dá quando um indivíduo estuda com postura crítica, quando vê a duplicidade da busca do conhecimento, buscando aprofundar-se com afinco no ato.

            Quanto à duplicidade no ato de estudas pode-se diz que é decorrente dos dois “tipos” de estudo: a direta e a indireta. A primeira manifesta-se quanto vemos uma relação direta do sujeito com o objeto do estudo. Já a indireta ocorre, mediante uma postura crítica, com o julgamento do valor do texto, seja pela autoridade do autor ou pelos elementos textuais.

            O leitor como sujeito de sua leitura deve estar atento a três pontos fundamentais: a compreensão (e não a memorização) do texto; avaliar o que se lê, julgando de acordo com a realidade expressada; e ter uma atitude de constante questionamento, para compreender o que é realmente relevante a ele (o leitor). Dessa forma, além de evitar tornar-se um leitor-objeto (acrítico e passivo), a pessoa vira leitor-autor que não só recebe mensagens, mas também as cria e as transmite.

            Ao longo de uma leitura crítica, um leitor deve buscar extrair uma visão do mundo segundo o autor, mas com criticidade, para não atuar como leitor objeto. Assim, não se deve apenas buscar a mensagem principal, mas também julgá-la, no seu valor e amplitude.

            Para proceder a análise de um texto, poderá ser utilizado um esquema com três grandes grupos que, embora descaracterizem a dinamicidade do processo de leitura, são válidos para quaisquer circunstâncias em que se deseje fazê-lo. Após uma leitura primária do texto, devem-se buscar os elementos dos seguintes grupos: elementos subsidiários da leitura, elementos da leitura propriamente dita (estudo da temática do texto) e elementos de avaliação e proposição.

            No que tange aos elementos subsidiários da leitura, deve-se:

1 – Procurar as referências do texto, ou seja, nome do autor, bibliografia, nome do texto, ano;

2 – Identificar o tipo de texto, que pode ser classificado em filosófico, científico e literário, pois cada tipo tem estrutura diferente e modo diverso de dizer as coisas;

3 – Conhecer os dados biográficos do autor e do texto, uma vez que é muito importante entender a realidade sob a que o autor escreveu; e

4 – Estudar os componentes desconhecidos do texto para compreender o texto de maneira mais fácil e completa.

            Sobre os elementos da leitura propriamente dita, deve-se identificar:

1 – E analisar o título do texto;

2 – O tema abordado;

3 – A problematização feita pelo autor em torno do tema;

4 – O ponto de vista ou idéia central; e

5 – A argumentação.

            Concluída a compreensão do texto, vamos à análise do mesmo a partir de elementos de avaliação e proposição. Nesta etapa deve-se:

1 – Avaliar o texto lido, a partir de uma perspectiva externa (que se fundamenta em fatos externos como a autoridade científica do autor e o posicionamento político) e da interna (validade através da estrutura, validade e mensagem de valor sócio-politico).

2 – Após o julgamento de valor e tomada a posição reforçar os aspectos positivos, dando-os espaço e, se possível melhor fundamentação, e os negativos devem ser superados.

            “Após a conclusão de uma leitura crítica, estamos em condições de assumir uma posição de leitor-autor, pois aprendemos um conhecimento já produzido e, então, nos propomos a ampliar e alargar elementos que o texto lido nos despertou”. (p. 153)

 

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,. Leitura Crítica. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 22 Mai. 2008. Disponível em: www.investidura.com.br/biblioteca-juridica/resumos/conhecimento/58-leitura. Acesso em: 24 Set. 2017

 

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