O processo de orientação e a relação entre orientador e orientando: reflexos na produção científica de boa qualidade

Ruth Faria da Costa Castanha[1]

RESUMO

 O presente artigo objetiva a discussão quanto os reflexos da relação entre orientador e orientando na produção acadêmica de boa qualidade. Verificou-se que as dificuldades enfrentadas ao longo do processo de orientação de discentes – principalmente mestrandos e doutorandos – exercem influência direta na monografia elaborada pelo orientando. A importância do debate se dá em razão da pós-graduação stricto-sensu ser a principal fonte de produção acadêmica do Brasil e a orientação efetiva durante todas as etapas de construção da dissertação ou tese é determinante na boa qualidade destes trabalhos científicos.

 PALAVRAS-CHAVE: RELAÇÃO ORIENTADOR-ORIENTANDO – PRODUÇÃO CIENTÍFICA – BOA QUALIDADE.

 THE PROCESS OF GUIDANCE AND THE RELATIONSHIP BETWEEN ADVISOR/ADVISEE: REFLECTS INTO THE HIGH-QUALITY SCIENTIFIC PRODUCTION.

 ABSTRACT

 The purpose of this paper is to discuss the way that the advisor/advisee relationship reflects into the high-quality scientific production. It has been noticed that the difficulties faced through the process of the student’s guidance - mainly master degree and PhD students – influences directly in the monography made by the advisee. This debate is important on account of the postgraduated stricto-sensu to be the major source of the scientific production in Brazil and an effective guidance during all the stages of the development of the dissertation or thesis is crucial to the determinate the high quality of this scientific work.

 KEYWORDS: ADVISOR-ADVISEE RELATIONSHIP – SCIENTIFIC PRODUCTION – HIGH-QUALITY.

INTRODUÇÃO

Em 22 de abril de 2013 o jornal A Folha de São Paulo veiculou uma matéria[2] sobre o crescimento da produção científica no Brasil que apontou a contraditória realidade. Enquanto crescem os índices quantitativos, nota-se uma queda livre da qualidade do que é produzido no país.

 Segundo dados da Folha os indicadores demonstram que em 2011, os pesquisadores brasileiros publicaram 49.664 artigos, o equivalente a 3,5 vezes o volume de 2001, de 13.846 trabalhos.

 No entanto, a qualidade dos trabalhos científicos, aferida, dentre outros fatores, pelo impacto – número de vezes que cada estudo foi citado por outros cientistas sofreu abrupta queda.

 A perda da qualidade em detrimento do aumento da quantidade  deve ensejar a reflexão dos problemas no sistema educacional brasileiro no que tange aos cursos de mestrado e doutorado.

 A partir da inquietação gerada por esta disparidade é necessário volver os olhos ao processo de orientação como uma das possíveis respostas ao decréscimo na qualidade acadêmica. Embora as exigências de número de produção pela CAPES sejam fatores que contribuem para a perda da qualidade dos trabalhos, é essencial refletir sobre como se dá no âmbito das relações entre orientador e orientando durante a construção destes trabalhos.

 A pesquisa que originou este artigo é do tipo bibliográfica. Os dados e informações foram encontrados em livros, revistas e jornais. Durante a busca diversas foram as dificuldades, dentre elas constatou-se a escassez de bibliografia atinente ao tema, sobretudo no âmbito da ciência jurídica, o que denota a ausência de prioridade na formação teórica de orientadores pelas instituições de nível superior. Assim, a consulta se deu majoritariamente em livros e artigos científicos de outras áreas, os quais deram ao trabalho grande contribuição.

 1 A QUESTÃO DA ORIENTAÇÃO: UMA BREVE ANÁLISE HISTÓRICA

 Segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa orientador é “aquele que orienta, direciona” (HOUAISS, 2010).

A palavra também tem suas origens na cultura indo-européia e significa “aconselhar o pensamento” (FERREIRA, 2009). No inglês, para designação do orientador utiliza-se Mentor, e Mentee, para referir-se ao orientando. Esta terminologia está calcada na estória de Mentor, personagem da Odisséia de Homero.

 Segundo o mito, Ulisses vai para a guerra de Tróia e deixa sua esposa Penélope e o filho Telêmaco, ainda criança. Preocupado com a segurança de sua família Ulisses nomeia seu amigo Mentor como cuidador de Telêmaco. Mentor é incumbido de orientar e aconselhar o filho de Ulisses até que este retorne da guerra.

 Passados muitos anos Telêmaco, já adulto e preocupado com sua herança, disputada por pretendentes de sua mãe, decide sair à procura de seu pai. Nesta jornada Mentor era o seu guia e por vezes assumia a forma de Atena, deusa da sabedoria, para direcioná-lo e defendê-lo em meio às vicissitudes da viagem.

 É importante ressaltar que Mentor responsável pela educação de Telêmaco, inclusive por formar o seu caráter, seus princípios e sabedoria de suas decisões. Nesta relação de ajuda Mentor não estava sozinho. Quando do termino da jornada Telêmaco tinha maturidade e já tomava decisões independentemente. Como se pode ver, Mentor foi uma fundamental figura de transição da infância de Telêmaco para sua maturidade.

 Na ausência de Ulisses, Mentor, por meio de sua experiência, mentoreava Telêmaco, ou seja, lhe orientava, inspirava e encorajava à independência e autonomia, por meio da formação de sua própria identidade.

 A partir desta concepção de educador e direcionador contida na estória de Telêmaco e Mentor surge a o atual orientador e o processo de orientação.

 1.1 Quem é o orientador:

 O orientador é um educador, um interlocutor crítico, pessoa legitimada a conduzir o processo de orientação (SEVERINO, 2010), que culminará na elaboração da monografia. Ele dialogará com o orientando e com este compartilhará sua maturidade, contudo, não poderá assumir uma posição de detentor da verdade, sem respaço para seu crescimento pessoal.

 O orientador não deve ser confundido com um pai ou com um carrasco malfeitor. Ele também não é terapeuta, advogado ou senhor de escravo (SEVERINO, 2010), por isto, o processo de orientação não deve ser autocrático e baseado na submissão do orientando ao orientador. Há entre ambos uma necessidade de trabalho dialético, em conjunto, o que deve ser buscado durante todas as orientações.

 Contrariamente à concepção de alguns discentes, o orientador não é responsável pela redação dos capítulos da monografia e indicação da bibliografia para a pesquisa. Deve promover a autonomia do orientando para que este encontre o seu caminho dentro da pesquisa, entretanto, a independência não poderá ensejar o abandono, é importante que a orientação forneça ferramentas para que o aluno se torne efetivamente um pesquisador.

 1.2 A realidade brasileira:

 O processo de orientação surge no Brasil a partir da recente estruturação dos cursos de pós-graduação stricto-sensu, cuja principal exigência para titulação é a elaboração de uma dissertação para o mestrado ou tese para o doutorado. O trabalho de pesquisa resulta na monografia redigida pelo próprio discente, a ser apresentada em banca examinadora ao final do curso. A orientação não é criação brasileira, fora emprestada dos países europeus e dos Estados Unidos, em que os cursos de doutoramente e mestrado remontam ao século XIX [3].

 No início século XIX surgiam os primeiros cursos superiores no Brasil. A Academia Militar e Academia Naval foram fundadaz em 1810, os cursos de Direito de São Paulo e Olinda, em 1827, a Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro, em 1832 e a Faculdade de Farmácia de Ouro Preto, em 1839[4].

 Não obstante a tentativa de criação da Universidade no Brasil ainda no século XIX, por D. Pedro II, este não obteve êxito. O início das instalações da primeira universidade, na Praia da Saudade, Rio de Janeiro, ficou estagnado por ausência de apoio do Parlamento[5].

 Somente em 1920 criou-se a primeira universidade brasileira, a Universidade do Rio de Janeiro, com os cursos de Medicina, Direito e a Politécnica. Após, advieram as Universidades de Minas Gerais, em 1827, de São Paulo, em 1935, e, a Universidade do Distrito Federal, em 1937[6].

 No entanto, somente quase cinqüenta anos após a criação das primeiras universidades surge, no Brasil, a legislação que regulamentaria os cursos de mestrado e doutorado. A Fundação CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – iniciou o processo de avaliação destes cursos no final da década de setenta.

 O modelo de orientação rompe com o padrão vertical da sala de aula de graduação, onde um professor, em aula expositiva, leciona para grande número de alunos. A idéia de orientador resgata a figura do professor tutor, aquele que ensinava a apenas um aluno, que o conduzia em todo o processo educacional, de maneira individualizada. Por isto, grande parte das instituições de ensino superior enxerga a orientação como economicamente inviável. Considerando que dos cursos de mestrado e doutorado emana a maior parte da produção científica nacional, a ausência de investimentos em orientação é um dos problemas mais sérios da produção acadêmica do Brasil.

 A educação superior em massa, apesar da democratização do ensino, trouxe algumas dificuldades, uma delas é a restrição de praticamente toda a produção acadêmica no Brasil à pós-graduação stricto-sensu. Grande parte das universidades particulares almeja exclusivamente o lucro, por isto não demonstram preocupação com a formação do pesquisador e do docente.

 O atual contexto ainda é de transição, já que a expansão do ensino superior privado ocorrida nos anos noventa (MARTINS, 2010) ainda não conseguiu equalizar a realidade e o dever-ser. O Brasil transita da ausência de acesso à educação superior pela população mais pobre ao à chegada desta parcela ao ensino massificado das universidades particulares. Até que se estabeleça um equilíbrio entre a educação para todos e a qualidade deste ensino haverá necessidade de ampla regulamentação e fiscalização pelos órgãos e demais entidades responsáveis pela aferição da qualidade educacional.

1.3 Relação entre orientador e orientando:

 Em 16 de abril de 2004 o jornal A Folha de São Paulo veiculou um rol de atentados contra universidades[7]. Destacamos o caso do estudante de pós-graduação em Engenharia da Universidade Estadual de San Diego da Frederick Martin Davidson, 36 anos, que movido por extrema tensão em 15 de agosto de 1996 sacou uma arma durante a defesa de sua tese e abriu fogo contra uma banca, matando três professores. O jovem foi condenado a 90 anos de prisão (OLIVEIRA, 2006).

 A narrativa deste fato tem o condão de demonstrar que a relação estabelecida entre orientador e orientando é humana, formada por pessoas e envolve as mazelas inerentes à pessoa. O processo de orientação pode ser marcado por desacordos e turbulências emocionais, entretanto, pode ser uma viagem prazerosa com diálogo, compreensão e criatividade mútua. As vicissitudes desta jornada tornarão ou não o trabalho exeqüível.

 Geraldo Alemandro Leite Filho e Gilberto de Andrade Martins (2006, p. 100) afirmam que uma boa relação entre orientador e orientando pode ser a contribuição máxima para a elaboração de um trabalho acadêmico. Outrossim, as falhas nesta relação podem comprometer a produção acadêmica.

 O autor aponta as dificuldades enfrentadas durante a orientação como causas determinantes da qualidade da tese ou dissertação. Dentre os problemas na relação entre orientador e orientando destacam-se: o número exacerbado de orientandos por orientador, a ausência de tempo de disponibilidade de tempo dos orientadores, a falta de prioridade na formação teórica do orientador.

 Com o intuito exclusivo de obter lucros, muitas instituições sobrecarregam os orientadores com um número exorbitante de alunos orientandos. Em razão disto, as orientações não ocorrem em tempo adequado e as devolutivas são realizadas de maneira deficiente ou simplesmente não são realizadas. Somado a isto, muitos orientadores vêem a atividade docente como uma forma de complementação de sua renda ou apenas como garantia de status social. Assim, disponibilizam de tempo escasso e acabam por comprometer a qualidade do trabalho do aluno.

 Também é fator prejudicial o despreparo de muitos orientadores. A orientação não deve ser vista como vocação, sua formação não pode ser somente na esfera empírica. É necessária uma bagagem teórica que respalde o orientador e o orientando. Em muitas instituições a disciplina de metodologia e didática do ensino superior, destinada à formação do pesquisador e do docente, é optativa, demonstração da ausência de prioridade neste tipo de formação.

 A relação entre orientador e orientando é intersubjetiva, pois trata-se de uma relação humana, entre pessoas dotadas de emoções, sentimentos, razão e todas as mazelas inerentes à humanidade, contudo, o envolvimento de ambos não poderá ser afetivo. O orientador deve estar livre para exercer sua imparcialidade e apontar as necessidades de mudanças no trabalho de pesquisa. Esta relação deve pautar-se nos seguintes pilares[8]:

 Respeito: como em qualquer relação humana, o respeito deve nortear o processo de orientação. O processo de orientação deve respeitar o grau de formação do orientando, o que garantirá a valorização no âmbito de seu conhecimento e aptidões e manterá uma relação amistosa.

 Comprometimento: é necessário que ambos entendam suas prerrogativas e deveres no processo de orientação. O estabelecimento de limites e clareza do acordo entre orientador e orientando pode evitar desentendimentos no percurso. É importante se estabelecer um cronograma da pesquisa para que ambos sejam dirigidos por prazos e metas.

 Paciência e compreensão: a construção da tese ou dissertação exige paciência e compreensão do orientador e orientando, pois o percurso geralmente é norteado pela angústia, ansiedade e desgaste. Uma boa forma de exercitar a paciência é por meio da empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro e de enxergar com os seus olhos.

 Transparência (sinceridade): o orientador deve realizar os apontamentos destinados ao aprimoramento do trabalho do orientando, ele tem não somente o direito, mas o dever de aferir a qualidade do trabalho do aluno e de lhe direcionar. Por isto, é importante que a orientação seja calcada na transparência e sinceridade.

 Acompanhamento de capítulo por capítulo: o orientador deve dedicar tempo à construção paulatina da monografia, pois esta é oriunda de um processo dialético que envolve orientador e orientando.

 Como se pode notar o processo de orientação é determinante na produção acadêmica, entretanto, a dinâmica das universidades deve ser questionada e revisitada, pois a precariedade na exploração deste tema é nítida evidência da falta de preocupação da maioria das instituições de ensino superior.

 Compreender a orientação como vital à produção acadêmica é salutar para o aprimoramento do aluno de pós-graduação e para o alcance da finalidade da universidade como criadora e propagadora do conhecimento científico em sua comunidade.

 Além da minúscula produção científica no campo da orientação destaca-se como entrave ao desenvolvimento deste tema o excesso de manuais de metodologia (BIANCHETTI; MACHADO, 2002, p. 13-19). O número excessivo de manuais de metodologia representa uma tentativa de substituição da atividade de orientação. Estes livros assumem um papel de receituários que prescrevem as normas para confecção de textos acadêmicos.

 No entanto, o processo de orientação é construído de maneira intersubjetiva, com crescimento paulatino e constante do orientador e do orientando. Neste processo ambos embarcam numa viagem que levará a descobertas inusitadas, a um amadurecimento pessoal e científico.

 A exaustiva quantidade de manuais também almeja a imposição de uma padronização exacerbada da produção acadêmica e da própria escrita. De fato a partir destes modelos o aluno conseguirá desenvolver seu trabalho, porém, ao final não apresentará qualquer intimidade com a escrita e não terá obtido êxito construção de seu estilo e de sua identidade enquanto pesquisador e escritor.

 A pesquisa é a busca de respostas às inquietações do pesquisador, que almeja de maneira crítica solucionar a situação-problema que lhe moveu à realização da pesquisa. A adoção de manual em detrimento do processo paulatino de orientação não poderá gerar no aluno uma concepção crítica da realidade e ao final não terá sido devidamente agregado real saber em sua bagagem.

 É necessário um tratamento mais cuidadoso à questão da orientação por ser ela essencial à produção científica de qualidade.

 2 O ORIENTADOR, O ORIENTANDO E O TEMA

 “O tema é o assunto que se deseja provar” (LAKATOS, 2003), é uma projeção do conteúdo geral do trabalho (SERRANO, 2003). Ao verificar o tema o leitor deve ter uma noção do que tratará a tese ou dissertação.

 O orientando deve protagonizar sua obra, razão pela qual a escolha do tema deve ser realizada livremente por ele, sem ingerências ou coação. É comum a parceria entre aluno e professor na confecção de artigos científicos. Mas, muitos orientadores aproveitam-se da pesquisa do orientando para respaldar seus trabalhos e por vezes se utilizam da produção do aluno e publicam em seu nome textos elaborados pelos alunos (ECO, 2005, p. 33).

 Umberto Eco preconiza algumas maneiras de não ser explorado pelo orientador (2005, p. 33-34): o aluno poderá verificar se o orientador cita as contribuições de seus alunos em suas publicações e verificar se há nele confiança e estima.

 Para a escolha do tema é importante considerar fatores internos e externos[9] do orientando:

 a)  Internos:

 a.1) É necessário considerar as inclinações e aptidões pessoais: a fase de produção da tese/dissertação tem sido descrita por alguns autores como a mais angustiante da pós-graduação. Assim, é necessário escolher um tema que seja do agrado do orientando.

 A crônica de Mário Prata (Jornal O Estado de São Paulo, 1998) retrata uma situação comum para quem está em fase de pesquisa e redação da tese ou dissertação:

Tenho um casal de amigos que há uns dez anos preparou suas teses. Cada um, uma. Dia desses a filha, de 10 anos, no café da manhã, ameaçou:

 - Não vou mais estudar! Não vou mais à escola.

Os dois pararam - momentaneamente - de pensar nas teses.
- O quê? Pirou?

 - Quero estudar mais, não. Olha vocês dois. Não fazem mais nada na vida. É só a tese, a tese, a tese. Não pode comprar bicicleta por causa da tese. A gente não pode ir para a praia por causa da tese. Tudo é pra quando acabar a tese. Até trocar o pano do sofá. Se eu estudar vou acabar numa tese. Quero estudar mais, não. Não me deixam nem mexer mais no computador. Vocês acham mesmo que eu vou deletar a tese de vocês?(PRATA, 1998) 

 

 A situação narrada pelo autor ratifica a necessidade de afinidade do orientando em relação ao tema escolhido, já que haverá uma convivência diária com o assunto. Portanto, é razoável reconhecer que orientador não pode determinar a escolha do tema do orientando.

 

 Ademais, o orientando não está preso ao orientador, ambos são livres para sair quando desejarem. Cabe ao orientador apontar e criticar a presença de termos vagos, ambíguos e generalidades.

 

 a.2) O tema deve ser compatível com a formação do orientando (graduação, mestrado, doutorado e áreas afins).

 a.3) O objeto escolhido deve ser passível de investigação científica e delimitação para a pesquisa.

 

 b)  Externos:

 b.1)  Disponibilidade de tempo para desenvolvimento da pesquisa.

 b.2) Existência de obras em número suficiente para a pesquisa.

 b.3) Possibilidade de consultar especialistas da área escolhida para analisar e interpretar documentos quando o tema for transversal.

 

 2.1 O tema jurídico:

 

 A visão reducionista do direito (concebido como um conjunto de normas) por vezes leva o orientando a uma equivocada visão sobre o que é um tema jurídico.

 

 Entretanto, há diversas abordagens possíveis. Barral (2003) destaca algumas sugestões de temas jurídicos que não se limitam à concepção do direito como norma:

 

 a)  Direito como justiça: Filosofia do Direito;

 b)  Direito como fato social: História do Direito;

 c)  Análise econômica do direito: Sociologia jurídica;

 d)  Direito como disciplina: Metodologia Jurídica ou do Ensino

 

 Para o desenvolvimento da pesquisa é imprescindível a delimitação máxima do assunto. Ex.: “direito do menor” não é um tema. “Direito à educação do menor em conflito com a lei” é tema.

 Umberto Eco (2006) afirma que quanto mais delimitado menos conhecimento a banca deterá a respeito do tema, o que favorecerá o orientando em sua defesa.

 2.2 A questão do problema

 Segundo o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, dentre outros significados, problema é “assunto controverso, ainda não satisfatoriamente respondido em qualquer campo do conhecimento, e que pode ser objeto de pesquisas científicas” (HOUAISS, 2010, p. 628).

 O problema deve ser explicitado em forma de pergunta científica e decorre de uma inquietação, de uma dificuldade que somente poderá ser solucionada por meio da pesquisa.

 “Enquanto o tema de uma pesquisa é uma proposição até certo ponto abrangente, a formulação do problema é mais específica: indica exatamente qual a dificuldade que se pretende resolver”. (LAKATOS, 2003, p. 126).

 Segundo Antonio Carlos Gil (2010, p. 26-29) a formulação do problema deve ser norteada por alguns princípios:

 a) Deve ser formulado em forma de pergunta: a formulação de uma pergunta provoca a problematização da questão e leva o orientando a buscar as respostas por meio da pesquisa.

 b) Deve ser claro e preciso: a questão deve se revestir de objetividade, de maneira que sejam evitadas ambigüidades e generalidades. É essencial que a pergunta formulada possa ser respondida.

 c) Deve ser empírico: a questão não deve referir-se a valores ou julgamentos morais, deve haver cientificidade.

 d) Deve ser delimitado a uma dimensão viável: o problema não pode ser generalizado, deve ser limitado ao máximo para tornar viável a pesquisa.

 Após a formulação do problema científico é necessário determinar uma hipótese, ou seja, uma possível, provável e provisória resposta[10]. Enquanto o problema é apresentado na forma de interrogação, a hipótese se dá como afirmação, uma tentativa de apresentar previamente uma solução ao problema e de testar o próprio problema.

 O orientador exerce papel essencial no aperfeiçoamento e elucidação do problema e das hipóteses. Ele orientará o discente na busca pelas respostas e o conduzirá à autonomia necessária e inerente ao pesquisador de excelência.

 3 UM NOVO PARADIGMA NO PROCESSO DE ORIENTAÇÃO

 Apesar das dificuldades no processo de orientação, algumas deficiências podem ser sanadas com simples mudanças na dinâmica das instituições superiores[11].

 A realização de uma reunião de orientação coletiva no início do curso poderia ser útil para fixação de acordos, limites, prazos, direitos e deveres do orientador, orientando e da instituição durante todo o processo. A partir deste acordo as partes poderiam sofrer sanções pelo descumprimentos dos parâmetros fixados.

 Hodiernamente se verifica uma dificuldade no estabelecimento de datas, horários, local e periodicidade para as orientações. Isto se dá em razão da inexistência, na maioria das universidades, de uma obrigatoriedade de periodicidade dos encontros para orientação. É comum o orientando procurar incessantemente o orientador e muitas vezes não obter êxito. A definição de datas, horários e locais representaria uma possível solução aos desencontros entre aluno e professor.

 Outra alternativa é a exigência de apresentação de cronograma juntamente com o projeto de pesquisa, além do protocolo de relatórios das atividades com prazo previamente estabelecido pela coordenação dos cursos.

 Os cursos de mestrado e doutorado destinam-se à formação de docentes e pesquisadores. Diante disto, entendemos ser imprescindível a obrigatoriedade da disciplina de metodologia da pesquisa e didática do ensino superior em todos os programas, sem prejuízo de noções de relacionamento interpessoal aos orientadores.

 É importante ressaltar que a função do orientador é a de orientar, não desorientar. A educação é a finalidade de toda busca por respostas aos problemas científicos apresentados e os benefícios são imensuráveis, a produção acadêmica de qualidade representa avanço científico, tecnológico e cultural para o Brasil.

 CONCLUSÃO

 A pesquisa realizada demonstrou as dificuldades enfrentadas pelo processo de orientação desde o surgimento dos cursos de doutorado e mestrado até os dias atuais.

 As barreiras a serem ultrapassadas passam pela ausência de interesse das instituições devido ao alto custo do processo de orientação, e pela normatização deste processo pela CAPES e pelo MEC, cuja exigência é essencialmente quantitativa.

 O Brasil ainda está em transição de uma educação destinada a uma pequena parcela da população para a democratização do ensino, em busca de um equilíbrio entre a massificação do ensino superior e o ensino de qualidade.

 Verificou-se que a relação entre orientador e orientando é determinante na construção de uma tese ou dissertação de boa qualidade. Entretanto, para além do trabalho científico monográfico, os problemas decorrentes desta relação afetam diretamente a formação do pesquisador e do futuro orientador.

 A cultura em que estamos submersos tende a protelar o investimento na formação técnica e teórica do orientador. Na atualidade o orientando torna-se orientador a partir da orientação recebida durante o curso de mestrado ou doutorado. Não se vê na maioria das universidades uma preocupação com a normatização, limites e estrutura deste processo, culminando na produção acadêmica cada vez de menor qualidade.

 As mudanças necessárias vão desde a exigência de apresentação de cronograma com prazos para o professor e o aluno quando da admissão na pós-graduação stricto-sensu, até o estabelecimento, pela CAPES, da inserção da disciplina de metodologia e didática do ensino superior como obrigatória. A partir destas pequenas alterações nos cursos de mestrado e doutorado será possível o estabelecimento de um novo paradigma na educação superior, com avanços na produção acadêmica de boa qualidade e conseqüente reconhecimento da capacidade de produção científica em âmbito internacional.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 BARRAL, Welber. Metodologia da pesquisa jurídica. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2003.

 BIANCHETTI, Lucídio. MACHADO, Ana Maria Netto Machado. Org. A bússola do escrever: desafios e estratégias na orientação de teses e dissertações, São Paulo: Cortez: 2002.

 Diniz, Maria Helena. Técnicas de monografia jurídica. Palestra proferida no Instituto Internacional de Direito, São Paulo, 26 set 2015.

 ECO, Umberto. Como se faz uma tese. São Paulo: Perspectiva, 2006.

 FERREIRA, Lydia Masako. FURTADO, Fabiane. SILVEIRA, Tiago Santos. Relação orientador-orientando: o conhecimento multiplicador. Acta Cir. Brasb. Vol 24. São Paulo, 2009.< http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010286502009000300001&script=sci_arttext&tlng=pt> Acesso em 10 set. 2015.

 FILHO, Geraldo Alemandro Leite; MARTINS, Gilberto de Andrade. Relação orientador-orientando e suas influências na elaboração de teses e dissertações. Revista da FEA – USP. 10 f. São Paulo, 2006.

Folha de São Paulo. Veja os mais violentos ataques contra universidades dos EUA. São Paulo. Publicado em 16 de abril de 2004 < http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u106498.shtml> acesso em 22 nov. 2015.

 GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 5 ed. São Paulo: Atlas, 2010.

 HOUAISS, Antonio. Míni Houaiss: dicionário da língua portuguesa.4ª Ed, Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, pág. 564

 LAKATOS, Eva Maria. MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos de metodologia. 5. ed. São Paulo: Atlas 2003.

 MARTINS, Carlos Benedito. A reforma universitária de 1968 e a abertura para o ensino privado no Brasil. Educ. Soc., Campinas, vol. 30, n. 106, p. 15-35, jan./abr. 2009 <http://www.scielo.br/pdf/es/v30n106/v30n106a02>, disponível em 20 nov. 2015.

 OLIVEIRA, Aldenira Silva de. Relação orientador-orientando e a teoria das relações interpessoais de Robert Hinde. 2006. 111 f. Dissertação (mestrado) – Universidade Católica de Brasília. Brasília – DF.

 RIGHETTI, Sabine. Brasil cresce em produção científica, mas índice de qualidade cai. Jornal Folha de São Paulo. Publicação em 22 abr. 2013. Acesso em 20 nov 2015 <http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2013/04/1266521-brasil-cresce-em-producao-cientifica-mas-indice-de-qualidade-cai.shtml>

 SERRANO, Pablo Jiménez. Metodologia do Ensino e da pesquisa jurídica. Barueri: Manole, 2003.

 SEVERINO, Antonio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 23 ed. São Paulo: Cortez, 2003.

 VIANA, Cleide Maria Quevedo Quixadá. Arelação orientador-orientando na pós-graduação strictu-senso. Linhas críticas, Brasília: 2008.


[1] Advogada, Mestranda em Filosofia do Direito pela PUCSP. Bolsista da CAPES. Email: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

[2]Righetti, 22 abr. 2013

[3] ZILBERMANN, 2002, p. 330-333

[4]Idem 2.

[5]Idem 2.

[6]Idem 2.

[7]Folha de São Paulo, 04 abr. 2004

[8]Diniz, Maria Helena. Técnicas de monografia jurídica. Palestra proferida no Instituto Internacional de Direito, São Paulo, 26 set 2015.

[9] Gil, 2010.

[10]Gil, 2010, p. 32-39

[11]FILHO, 2005, p. 107.


 

Como referenciar este conteúdo

CASTANHA, Ruth Faria da Costa. O processo de orientação e a relação entre orientador e orientando: reflexos na produção científica de boa qualidade. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 26 Mai. 2017. Disponível em: investidura.com.br/biblioteca-juridica/artigos/metodologia-da-pesquisa/335734-o-processo-de-orientacao-e-a-relacao-entre-orientador-e-orientando-reflexos-na-producao-cientifica-de-boa-qualidade. Acesso em: 22 Set. 2018

 

ENVIE SEU ARTIGO